A Conquista da Liderança

Existem palavras que carregam consigo um significado e impacto muito forte em nossas vidas. Liderança é uma delas, especialmente quando nos vemos inseridos no mercado de trabalho exercendo cargos que envolvem gestão de equipe, influência e responsabilidade sobre pessoas. Forma-se nesse momento a figura do líder, que tem o papel de guiar e cuidar de uma equipe. Mas será que o líder é necessariamente aquele que ocupa um cargo específico na hierarquia organizacional? Será que aqueles que chamamos de líderes, são realmente líderes ou apenas chefes? O que caracteriza a verdadeira liderança?

Para iniciar o debate, faço uma consulta a literatura acadêmica para buscar pelo conceito de liderança (como ex-aluno de mestrado que sou, acredito muito que os estudos científicos realizados pelo ambiente acadêmico podem nos ajudar a entender o mundo das organizações). Dentre diversos autores especializados no assunto, fico com a definição de Smircich & Morgan (1982): liderança é criar sentido para as pessoas em relação ao contexto ou ambiente em que atuam, orientando e guiando seus comportamentos. Em outras palavras, o líder é aquele que consegue criar um propósito para as pessoas e inspirá-las a tomar suas próprias decisões.

A liderança não está diretamente associada a cargos hierárquicos. Se observarmos grupos não estruturados, como crianças brincando, amigos organizando uma viagem, ou até mesmo sociedades primitivas, vemos que naturalmente algumas pessoas emergem como referência e guia dos demais. Essas pessoas conquistam o direito de liderarem os outros em função de algumas características:

  1. Autenticidade: o líder demonstra consistência entre seus discursos e ações, transmitindo confiança e credibilidade para as outras pessoas (traduzindo para o jargão corporativo, “walk the talk”)
  2. Responsabilidade: em complemento à autenticidade, o líder demonstra, através de suas atitudes e discursos, uma preocupação genuína com seu impacto sobre os demais e o bem-estar do grupo
  3. Capacidade: o líder possui capacidades e competências (técnicas ou comportamentais) que se destacam dentre os demais e lhes dão o know-how necessário para exercer aquele papel. Ele passa a ser considerado uma referência em algum assunto ou habilidade

Dois pontos merecem destaque nessa discussão. O primeiro deles é o fato da liderança ser uma conquista. A verdadeira liderança não é imposta pelo líder: na verdade, os liderados aceitam que alguém assuma o papel de líder, porque as características mencionadas acima se destacam nessa pessoa, fazendo com que os demais passem a ter segurança e confiança em suas orientações e ações.

O segundo ponto considera que a figura do líder não está necessariamente associada a um cargo na hierarquia organizacional, apesar delas poderem coincidir. Em nossas carreiras encontramos chefes ou pessoas em posições superiores as nossas que são verdadeiras inspirações e referências para nós, para as quais damos aquele extra mille no trabalho porque enxergamos um propósito no que está sendo pedido. Em muitas ocasiões, essas pessoas se tornam nossos mentores no ambiente profissional, extrapolando a relação para além da hierarquia. Ao mesmo tempo, é possível que muitos chefes com os quais trabalhamos sejam apenas chefes, e não líderes: são pessoas em posições superiores as nossas, e das quais recebemos orientações e direcionamentos, mas que não nos inspiram ou não enxergamos nelas uma referência. Nesse contexto, é mais provável que busquemos uma liderança em outras pessoas, alguém em quem nos inspirar para a realização do trabalho ou para pedirmos orientações e conselhos.

A liderança é, portanto, um resultado da interação genuína entre as pessoas. Isso significa que qualquer um pode ser líder, desde que exercite as habilidades necessárias para tal, e esteja interessado no desenvolvimento dos outros. Em diversos momentos seremos lideres, em outros seremos liderados. Em diversas ocasiões buscaremos uma liderança na hierarquia da empresa, em outros momentos, fora dela. O que importa é que sempre precisaremos de outras pessoas para poder evoluir em nossas carreiras, ao mesmo tempo em que precisaremos nos doar para que outras pessoas também evoluam.

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