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Começar um texto é estar atento a tudo que acontece ao redor, a inspiração pode vir de qualquer lugar: do ambiente de trabalho, de alguma discussão nos grupos de whatsapp ou de algum interesse em particular, mas este é apenas o pontapé inicial para um bom texto. Ao longo destes meses como colunista para a makers, vários pontapés ficaram anotados comigo e poderiam ser algo mais.  

Este, por exemplo, poderia ser um texto sobre trabalhar em casa, sobre o lado bom e ruim de estarmos enfurnados (e sermos privilegiados por isto) em casa por mais de um ano. Seria fácil, tenho diversas histórias para contar e pensei em começar com um tom mais sério, falando sobre um artigo que me chamou à atenção sobre mudanças no comportamento do consumidor. 

O jornal ‘The Economist’ publicou um artigo sobre o crescimento de procedimentos estéticos durante a pandemia, são valores expressivos de crescimento (+10% nos EUA, +20% na França) e o principal motivo citado para isto: as reuniões por vídeo! Sim, as pessoas não estavam preparadas para se ver e se comparar com outras pessoas o dia todo no vídeo, na maioria das vezes, com uma qualidade de câmera e luz ruins. Os homens foram os que mais recorreram aos procedimentos. 

Mas não, a inspiração acabou logo após este primeiro parágrafo. Por semanas, convivi com este único parágrafo em um .doc word aberto. 

Também poderia ser sobre o crescimento de uma pessoa como metáfora para o nosso crescimento profissional. Morei alguns meses com meu sobrinho de dois anos durante a pandemia, a experiência mais próxima à paternidade que já experimentei e pela primeira vez, vi um ser humano querer fazer tudo, querer aprender tudo e ser energia pura, mas ao mesmo tempo, não ter o conhecimento adequado para fazer suas atividades com segurança, estar sempre à procura de uma pessoa ‘mais velha’ para acompanhar suas descobertas e ser desengonçado nas suas pequenas conquistas. Você tem vitalidade, vontade de fazer, mas não tem liberdade. É preciso aprender. Muito parecido com as minhas primeiras experiências numa empresa, quando eu estava disposto a fazer qualquer atividade, quando eu daria tudo para participar de reuniões importantes com os ‘mais velhos’, quando novas ideias de projetos fervilhavam e tudo o que eu queria era ter alguém para compartilhar e construir juntos. 

Esse seria um bom texto, eu falaria em seguida sobre a fase adolescente, a fase de se provar e conquistar um lugar no grupo, de querer testar suas capacidades e a compararia com o período em que entendemos as engrenagens de uma empresa e começamos a nos expor com mais confiança, o primeiro projeto relevante entregue, a primeira equipe e a sensação de status conquistada dentro do ambiente corporativo. Poderia trazer exemplos pessoais aqui antes de evoluir para a fase adulta, a fase de segurança, de ter encontrado o lugar certo, a empresa com a cultura adequada (comparando-a com a segurança de uma família), o tom adequado de liderança depois de ter aprendido com vários gestores e absorvido um pouco de cada para misturar com o meu jeito de ser. 

E finalmente, a fase idosa, quando você novamente depende de outras pessoas para entender o mundo, para se adaptar às novas realidades (elas sempre vão existir, não?), faria um paralelo com o filme ‘The Father’, um caso extremo, mas que retrata o desespero de não se reconhecer em sua própria casa e como precisamos estar dispostos a confiar novamente nas pessoas para nos guiar. Terminaria dizendo que estas fases não estão apenas relacionadas com o tempo de trabalho, uma nova área pode te colocar de volta na ‘infância’ ou alguns anos confortável em uma mesma função pode te acelerar para a ‘fase idosa’. 

Por último, este texto poderia ser sobre a força de um propósito, me senti bastante inspirado por uma frase dita pelo diretor de cinema James Cameron em sua conversa durante o SXSW 2021, quando ele  apresentou seu novo documentário Segredo das Baleias: “Fizemos esta série para que as pessoas se apaixonem pelas baleias, pois nós só protegemos aquilo que amamos”. Aqui tem tudo o que eu gosto, branding, propósito e ainda, minha paixão pelo oceano. Seria um ótimo ponto de partida e ainda, poderia cruzar com a recente polêmica envolvendo uma startup americana que quis privar seus colaboradores de qualquer posicionamento sócio-político, ou seja, se tornar uma empresa sem propósito, sem um papel definido na sociedade. 

Seus fundadores, Jason Fried e David Hansson, enviaram um comunicado dizendo que a empresa Basecamp é responsável por gerenciar projetos e desenvolver software de e-mails, que seus colaboradores deveriam se concentrar apenas nestas atividades. A empresa eliminaria a partir de então qualquer esforço de criação de valor para os stakeholders além do bottom line. Em suas palavras: ‘Somos responsáveis por nós e isto, já é mais do que suficiente’. Indo na contramão do que o mundo empresarial construiu nos últimos anos,  a Basecamp perdeu 1/3 de seus colaboradores logo após a publicação deste comunicado. É a força do propósito em alta entre os colaboradores, mas com um revés inesperado vindo de CEOs até então admirados. 

Todas boas ideias para serem compartilhadas, mas que não foram além. Quantas boas ideias temos em nosso dia-a-dia, deixamos escritas em um .doc word, mas que morrem sem nunca se tornarem um projeto de fato? O que realmente nos inspira, nos motiva a agir e nos faz ir além da superfície?  O texto acabou sendo uma pergunta que permanece aberta.

 

The Economist: https://www.economist.com/international/2021/04/11/covid-19-is-fuelling-a-zoom-boom-in-cosmetic-surgery?utm_campaign=later-linkinbio-theeconomist&utm_content=later-16207029&utm_medium=social&utm_source=instagram

Basecamp: https://www.fastcompany.com/90629977/basecamp-banned-social-and-political-conversations-at-work-heres-what-it-should-have-done

Adrilles Carvalho

CMO da Philips