Malcolm & Marie: resultado de uma equipe de alta-performance

Successful and happy business team

Malcolm & Marie, o novo filme do diretor Sam Levinson disponível na plataforma Netflix, me fez refletir sobre relações de confiança. Na verdade, o tema da FICÇÃO é o desgaste e a falta de mistério de um relacionamento e a desvalorização do parceiro que drenam a confiança e a vontade de permanecer juntos, mas o que me inspirou foi a relação de cumplicidade que aconteceu na VIDA REAL. Escrito e produzido para o formato streaming durante a pandemia por uma equipe bastante reduzida, o filme é resultado de um time de alta performance, onde não existiram barreiras entre as atividades dos indivíduos e todos estiveram conectados por um objetivo comum, uma entrega visualizada desde o início.

Por trás de todo time de alta performance existe uma história de comprometimento. De acordo com Katzenbach & Smith, no livro ‘The Wisdow of Teams’, este time deve ser formado por um número limitado de pessoas com propósitos e objetivos compartilhados, conhecimentos técnicos e responsabilidades definidas. Cada membro deve contribuir e se preocupar genuinamente com os demais, numa relação que extrapola o profissional. E tão importante quanto os pontos anteriores, o sentimento de bom humor e diversão deve permear o grupo. Vamos entender porque Malcolm&Marie conseguiu reunir todos estes pontos. 

PROPÓSITO. Realizar um filme de baixo orçamento durante uma pandemia. Para isto, foi selecionada uma única locação, a Caterpillar house, distante dos centros urbanos na isolada praia de Carmel, onde o time pode permanecer e ‘criar uma bolha’. Apenas dois atores em cena, sem grandes desafios em produção, também fez parte das escolhas alinhadas ao propósito.   

Por ter uma razão de ser clara e também, por compartilhar a visão de como o projeto seria implementado, a equipe se sentiu livre para focar em resultados e soluções adequadas e entregar o que começou como uma conversa entre duas pessoas. 

OBJETIVO COMPARTILHADO. O filme surgiu a partir de conversas entre o diretor Levinson e a atriz Zendaya, logo após  trabalharem na premiada série Euphoria. Levinson escreveria 10-15 páginas de uma história e juntos, liam e conversavam por horas sobre o próximo trecho, tornando a experiência colaborativa. O mesmo aconteceu durante a produção, permitindo o diálogo entre os membros da equipe.  

O fluxo de informações flui naturalmente entre times de alta-performance, o que gera confiança entre as pessoas e melhora a performance. Diálogo e escuta ativa estão sempre presentes e conflitos são percebidos como oportunidades de melhoria, mas para isto, é preciso se atentar ao número ideal de pessoas no time. 

CONHECIMENTOS TÉCNICOS. Escolhidos entre os membros da produção da série Euphoria, um time bastante reduzido com pouco mais de 20 pessoas foi o suficiente para rodar e finalizar o longa. A sinergia e a confiança entre as pessoas estabelecidas anteriormente foram resgatadas para o novo projeto. 

A busca pelos melhores profissionais é sim relevante, mas focar apenas em talentos individuais é um erro bastante comum ao estabelecer um time. O líder precisa definir e contratar os soft skills que irão assegurar sinergia no grupo e ao mesmo tempo, garantir a autonomia nas tarefas. 

RESPONSABILIDADES DEFINIDAS. Durante a produção, a equipe técnica ganhou autonomia para liderar suas áreas de expertise. A fotografia em preto-e-branco foi uma sugestão do Marcell Rév, uma forma de homenagear os atores negros, já que durante a época de ouro dos filmes PB, negros não eram escalados como protagonistas. A trilha sonora, muitas vezes invade o diálogo e compõe o tom de voz dos personagens e o próprio cenário citado foi sugestão dos produtores. Não foi sobre realizar sua tarefa, mas sobre pensar no resultado final. 

Em times de alta performance, isso acontece naturalmente e a liderança é compartilhada de acordo com a necessidade ou problema a ser solucionado, claro que sempre existe um líder formal, mas sua funcão é mentorar a equipe e garantir a autonomia e o alinhamento necessários. 

PREOCUPAÇÃO COM O TODO. Em diversas entrevistas, Zendaya destacou o cuidado entre as pessoas e a sensação de que ‘se um caísse, todos cairíam’. Todos estavam juntos e acreditavam neste projeto, tanto que boa parte da equipe concordou em se tornar sócio da produção, tendo seus rendimentos atrelados ao sucesso comercial.

O reconhecimento das competências de um membro da equipe é capaz de modificar seu comportamento, trazendo uma melhora clara no desempenho e engajamento, um ciclo positivo que invade equipes de alta-performance. Além disso, aceitar ajuda e feedbacks também são comuns. 

Equipes de alta performance não acontecem, é preciso cultivá-las ao longo do tempo e manter um ambiente onde todos se sintam seguros para compartilhar e implementar ideias, onde melhorias contínuas são valorizadas. O resultado obtido por um filme de baixo orçamento não surpreende quando descobrimos mais sobre as pessoas e a autonomia envolvidas.