Plantas, pajés e algoritmos: saúde e natureza juntas de novo

Foto-detalhe de uma folha verde.

Em 24 de julho de 1910, o New York Times lançou uma bomba em formato de reportagem, que iria balançar o sistema educacional e a saúde em todo o mundo nos próximos 100 anos. 

Em duas páginas, o artigo “Fábricas para formar médicos ignorantes”2 resumia o estudo “Medical Education in the United States and Canada – A Report to the Carnegie Foundation for the Advancement of Teaching”1.

Elaborado pelo polêmico e ambicioso educador Abraham Flexner, o “Relatório Flexner”, como ficou conhecido, se tornaria a publicação sobre educação médica mais citada na história. Ele é considerado o grande responsável pela maior reforma das escolas médicas de todos os tempos.

Sim, ele determinou como você cuidou da sua saúde até hoje.

Por isso, e porque é o pivô de intrincadas teorias da conspiração que circulam pela rede mundial, vale a pena investir alguns minutos do seu dia para entender seu contexto e seus impactos.

Pronto para tomar a pílula vermelha?

O famigerado relatório

Em 1909, sob encomenda da fundação Carnegie, Abraham Flexner visitou 155 escolas médicas na América do Norte em 180 dias. Mesmo com pouco tempo de visitação em cada estabelecimento, ele foi categórico no diagnóstico: a grande maioria deveria fechar.

O documento apontou para um excesso de faculdades de medicina privadas e comerciais no mercado, que só existiam para fazer dinheiro para seus donos, gerando como consequência médicos despreparados que estavam despejando milhões de diagnósticos errados e terapias inadequadas, prejudicando a saúde da população.

Diante deste quadro, o Relatório Flexner propunha grandes reformas na educação médica, incluindo padrões mais elevados de admissão, mais tempo de formação, adesão ao método científico na pesquisa e prática e supervisão por conselhos de licenciamento estaduais. Também estabeleceu, como regra geral, um número muito menor de escolas de medicina, mais bem equipadas e dirigidas. E menos médicos se formando a cada ano, mais bem educados e mais bem treinados.

As motivações que levaram à criação do documento figuram entre as mais intrincadas teorias da conspiração da internet. Um dos fatores para isso é que o relatório foi amplamente divulgado pela mídia da época, que era sustentada pela publicidade de grandes empresas, que também eram investidoras na crescente indústria farmacêutica. 

Outro fator polêmico é que posteriormente foram criadas revistas técnicas, igualmente sustentadas por publicidade, que deram holofote para estudos científicos com foco em alopatia e medicamentos sintéticos. Estas revisões retroalimentaram o currículo das faculdades de medicina, que foram se voltando para o tratamento das doenças estabelecidas, e não à sua prevenção.

Analisado sob o contexto atual, é possível desconfiar dos motivos que levaram o relatório a viralizar. Mas no começo do século 20, o contexto era ideal para ele explodir. 

Remédio amargo e alguns efeitos colaterais

Em alguns aspectos, o Relatório Flexner foi uma cura.

A partir de meados do século 19, pequenas “escolas privadas comerciais”, não afiliadas a universidades e formadas por grupos de 8 a 10 professores, se multiplicaram. Nelas, o ensino era baseado em livros e aulas teóricas, e seus currículos e objetivos educacionais eram generalistas e não padronizados.

Já se discutia a formação médica nos bastidores da comunidade acadêmica, mas o artigo de Flexner – e sua ampla cobertura jornalística – envolveu a opinião pública e gerou uma ampla discussão social. 

O público respondeu aumentando doações e os políticos criaram impostos para financiar a educação médica. Além disso, um público escandalizado pela descrição Flexner sobre as escolas privadas existentes pressionou e acelerou mudanças regulatórias e a fiscalização. 

Com isso, das 148 faculdades de medicina americanas, sobraram apenas 66.

A partir do relatório, a formação médica saiu de quatro anos, muito baseada em estudo e teoria, para oito anos, além de incluir estágio obrigatório para a prática clínica. A qualidade médica aumentou significativamente, e os protocolos, tanto de pesquisa científica quanto de atendimento e prognósticos, foram padronizados. 

A aprovação de novas escolas de medicina ficou mais rígida, com necessidade de vínculo com hospitais e universidades, e a American Medical Association passou a supervisionar todas as escolas de medicina para manter os altos padrões.

A expectativa de vida saiu de 50 anos em 1910 para 80 em 2020. Vários fatores influenciaram isso, mas sem dúvida a evolução da medicina foi decisiva.

Mas houve gravíssimos efeitos colaterais.

A medicina se tornou uma profissão lucrativa e bem respeitada – e ficou muito mais elitista.

Das sete escolas voltadas à formação de médicos negros, cinco foram fechadas. A American Medical Association usou o relatório para exigir o mesmo padrão que as universidades da elite, e a sociedade abastada da época não destinou fundos para que estas escolas mantivessem ou atualizassem seus equipamentos e instalações.

Sem acesso a um ensino médio decente e sem renda ou apoio para acessar a universidade pública, a formação de médicos negros praticamente acabou. E esse efeito persiste até hoje: cerca de 4% dos médicos americanos são negros – e 80% deles estudaram no Meharry Medical College ou na Howard University, as duas escolas que sobreviveram à era Flexner. Em 2008, quase um século após o Relatório Flexner, a AMA se desculpou formalmente por “sua história passada de desigualdade racial em relação aos médicos afro-americanos”. 

Se o relatório sacrificou as escolas que fecharam e os menos abastados em nome da proteção da saúde da população, seu autor, na época um educador relativamente obscuro, ganhou fama internacional. 

Acabou produzindo outro relatório, sobre o ensino da medicina na Europa, em 1912; mesmo ano que recebeu um convite para integrar o Conselho Geral de Educação da Fundação Rockefeller. Em 1930, ele fundou o Instituto de Estudos Avançados de Princeton, que dirigiu até 1939, para o qual contratou Albert Einstein.

Saem as plantas, entram as cápsulas.

Outro efeito foi a demonização dos tratamentos naturais.

Druidas, pajés e gurus sempre existiram. No início das ciências da saúde, no papel do sacerdote, estavam embutidos o médico, o farmacêutico e o psicólogo, entre outros. A medicina era baseada em medicamentos fitoterápicos, muitos herdados de tradições milenares e traduzidos pela tradição oral, posteriormente organizados em livros. 

Há registros de fabricação de remédios a partir de plantas de mais de 2.600 anos da China. Na Índia, os brâmanes desenvolveram remédios a partir de 600 tipos diferentes de plantas medicinais. Hipócrates, que viveu no final do século 5 aC, mencionou cerca de 400 plantas medicinais em seus escritos. A Bíblia lista perto de 30 plantas medicinais

A farmácia, como uma atividade, apareceria na Alexandria, após um período de instabilidade marcado por guerras e epidemias. E a primeira escola de farmácia seria fundada em 754 em Bagdá. Em 1240, a farmácia foi separada oficialmente da medicina por um edital de Frederico II, imperador da Prússia, que estabeleceu o primeiro código de ética profissional. 

Em 1887, os praticantes de medicina alternativa compilaram a Farmacopéia Homeopática dos Estados Unidos. Assim, estimativas apontam que cerca de metade dos médicos e faculdades de medicina americanas praticavam a medicina holística em 1910, usando conhecimentos da Europa e dos nativos americanos e receitando fitoterápicos.

Essa prática reforçava a percepção de falta de padrão e evidência científica, e que as pequenas escolas privadas eram baseadas em crendices e superstições. 

E apesar de a maioria dos medicamentos da época, como o ópio e a morfina, serem extraídos de plantas, a ciência – baseada na observação, experimentação, publicação e reprodução – dava seus primeiros passos. 

O período de 1870 a 1910 é chamado de segunda revolução tecnológica (Pochmann, 2003), que coincide com a descoberta de novos materiais, como o aço, petróleo e energia elétrica, além de invenções como o motor, a combustão, o telégrafo, o telefone, o raio X, entre outros.

A química evoluía rápido. Em 1897, o alemão Felix Hoffman testou o extrato da casca do salgueiro no combate a infecções. Nos primeiros testes, a pílula sintetizada a partir da salicina – o princípio ativo da planta — não alcançou bom resultado, mas reduziu a febre. Para evitar que o remédio causasse queimação no estômago, ele acrescentou à fórmula a substância acetil. Nascia, assim, o ácido acetilsalicílico, que a Bayer popularizou como Aspirina. 

A ela se seguiram centenas de drogas sintéticas.

O método científico exigia estabilidade, e a padronização de protocolos baseados em pesquisa se tornou um cenário perfeito para a indústria farmacêutica de medicamentos sintéticos, que vinha crescendo na época, e passou a financiar a maioria destes estudos, fortalecendo o paradigma mais reducionista do Relatório Flexner e influenciando decisivamente os currículos escolares e protocolos médicos do século 20. 

Com o volume industrial, os custos das drogas sintéticas caíram. A industrialização permitiu a escala, que reduziu os custos e permitiu acesso da população aos medicamentos alopáticos. Sua adoção em massa foi questão de tempo. 

Assim, mais alguns efeitos derivados do artigo foram a separação definitiva do farmacêutico e do médico, o fortalecimento do papel da prescrição de drogas sintéticas na prática da medicina e a redução do papel da nutrição, exercício, sono e bem-estar psicológico e terapias alternativas na formação médica americana.

Com um foco mais reducionista e especializado na doença e seu tratamento corretivo, a prevenção ficou em segundo plano. E os medicamentos fitoterápicos seriam desacreditados na literatura médica por décadas.

Pajé com PHD

Se você zapear pelo Netflix, vai acabar encontrando documentários como “What the Health”, “Take your pills”, “The Pharmacist” e “Cowspiracy”. Elas escancaram uma profunda e crescente desconfiança no sistema de saúde inaugurado a partir do Relatório Flexner.

Há uma consciência coletiva crescente que aponta que o paradigma científico e reducionista teve seus méritos, mas passou do ponto. Não é possível tratar o coração, a coluna vertebral ou a pele de maneira isolada, sem tratar a mente, o espírito e as relações sociais junto.

Em 2016, a OMS constatou que cerca de 80% das doenças crônicas têm origem no estilo de vida. Ou seja, cuidando da alimentação, exercícios físicos, sono e bem-estar emocional, 4 em cada 5 pessoas não estariam doentes atualmente. 

Mas ainda assim, a educação médica continua muito influenciada pelo modelo flexerniano. A medicina integrativa, que trabalha na prevenção, por exemplo, ainda não é reconhecida pelos conselhos médicos em boa parte do mundo, incluindo o Brasil. 

Apesar disso, muitos médicos estão se preparando e aprendendo sobre nutrição, estilo de vida e terapias integrativas – ainda que fora da faculdade.

No Institute of Lifestyle Medicine, ligado à Harvard Medical School, um dos cursos mais disputados é o “Clinicians in the Kitchen”, de culinária voltada para médicos. Todas as receitas ensinadas são veganas.

As terapias alternativas também crescem sem parar, e não só nos Spas sofisticados. Em 1995, foi instituída no Brasil a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares, que incluiu 29 terapias alternativas no Sistema Único de Saúde. Em 2017, terapias como a Ayurveda, Dança Circular, Naturopatia e Reiki foram incorporadas. Em 2019, o SUS realizou cerca de 500 mil sessões de auriculoterapia, por exemplo. 

Existe uma busca de volta à natureza e ao natural, e, dessa vez, ela vem ancorada pelo avanço na genética, agricultura de precisão e muita ciência. 

O mercado global de cannabis medicinal em 2021, por exemplo, é projetado em US$16 bilhões, e deve atingir US$46 bilhões em 2026. Nos EUA, estima-se que cerca de 50% do mercado de opioides sintéticos focados em dor – que têm muitos efeitos colaterais – vai migrar para a cannabis, que, apesar de ser natural, é geneticamente controlada para manter padrão e precisão na prescrição.

A ciência aliada à natureza também está revolucionando nossa mesa. 

A foodtech chilena NotCo foi recentemente avaliada em US$ 1,5 bilhão, com aportes de Roger Federer e Jeff Bezos. O foco da NotCo é produzir alimentos plant based com mesmo gosto e textura dos tradicionais. Maionese sem ovos, sorvete sem leite, leite vegetal e carne que não é de animal. Todos os itens são feitos com base em inteligência artificial (IA) e no uso de algoritmos.

E mesmo gigantes produtores de proteína vegetal como JBS e BRF estão fabricando carne vegetal em volume industrial.

Esses movimentos chegam em um momento de crescimento de consciência com a saúde e novas gerações engajadas em causas sociais e com o planeta, além da escalada da agenda ESG.

Uma pesquisa feita pelo Ibope e encomendada pelo Good Food Institute Brasil, por exemplo, revelou que quase metade (47%) dos brasileiros reduziu o consumo de carne em 2020. Isso acelera uma tendência detectada pelo próprio Ibope em 2018, quando 14% da população se declarou vegetariana – um crescimento de 75% em relação a 2012, quando a mesma pesquisa indicava 8% de brasileiros vegetarianos ou veganos. 

Além disso, 55% da população disse estar disposta a consumir mais produtos veganos se estivessem melhor indicados na embalagem ou se tivessem o mesmo preço que os produtos regulares.

Temos reincorporado velhos hábitos, que foram herdados dos nossos antepassados e esquecidos por um século, mas desta vez repaginados pela tecnologia. 

Sim, a mesma ciência, que expulsou a natureza das faculdades de medicina em 1910, está resgatando a saúde integral – física, mental, espiritual, social e ambiental.

Finalmente os Pajés estão de volta – e agora com PHD em tecnologia. 

Nossa saúde agradece.

Natureza high tech 

Uma vez, conversei com um policial, que me explicou com muita simplicidade a diferença entre a polícia civil e militar: “o militar atua para prevenir o crime. O civil entra para investigar e resolver depois que o crime já aconteceu”.

É uma boa analogia para a saúde. A prevenção e a correção exigem tropas diferentes.

No meio de uma crise, não dá para esperar a resposta natural do corpo, nem apenas mudar a alimentação ou melhorar o sono. Estas medidas são preventivas. Uma vez estabelecida a doença, é preciso lançar mão dos medicamentos disponíveis, mesmo que sejam sintéticos.

Por outro lado, a ciência vem entendendo, explicando e deixando acessível o melhor que a floresta pode nos oferecer. E temos incorporado novos hábitos, herdados dos nossos antepassados, mas repaginados pela tecnologia. Estes recursos, cada vez mais personalizados e com a segurança garantida, são excelentes para prevenir doenças e principalmente para a manutenção da saúde.

A ideia de que um produto é natural, orgânico, vegano e sustentável é melhor para a saúde que seus substitutos processados e industrializados já não é um pensamento de nicho. Já virou sabedoria popular.  

Meu avô foi farmacêutico no interior de São Paulo, no final da década de 1940. Naquela época, não havia muitos médicos na região. Na cidade, não tinha hospital. Por isso, ele repetia um padrão dos curandeiros da antiguidade: era meio médico, meio químico, meio pajé. 

Fico feliz que, quase 70 anos depois dele ter fechado sua farmácia, seu papel vem sendo resgatado. 

Nossa saúde agradece.

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