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Como já falamos aqui em outra coluna, o mundo veloz e hiperconectado está cada vez mais BANI – Frágil, Ansioso, Não Linear, Incompreensível no acrônimo em inglês, porém, nessa época onde “um ano termina e começa outra vez” é inevitável que comecemos a pensar sobre o que nos espera no Ano Novo. Cada vez mais o papel do executivo de qualquer função é também o de um futurist, de olho atento nas transformações de hoje e seus impactos no amanhã. 

Com a devida ressalva da impossibilidade cada vez maior de compreendermos as infinitas mudanças globais e suas consequências, vou dividir com vocês aqui hoje algumas das coisas que estarão no meu radar para acompanhar no ano de 2022. Acredito que esses serão temas que vão definir e pautar o ano de forma geral e cujas ramificações e impactos serão sentidos em todos setores da economia e de negócio.

Inflação:

O fantasma da inflação voltou a dar as caras. Todos os brasileiros que lembram das décadas de 80 e 90 sabem do impacto profundo que os anos de hiperinflação tiveram na economia, sociedade e cultura brasileira. 

Mas, se por um lado estamos longe de termos os terríveis números inflacionários do pré-Real, dessa vez o fenômeno é Global e até economias como a americana e européia estão sentindo seus efeitos. 

Problemas na cadeia global de suprimentos e recordes de estímulo monetário pelos bancos centrais levaram a essa situação, mas suas consequências são profundas. Esse novo cenário precisa estar muito bem refletido nos planos para 2022, já que tem um grande impacto no poder de compras das famílias. Nesse cenário, decisões de consumo e sensibilidade a preço são bastante afetadas.

Antes pensada como um efeito “transitório” devido às mazelas econômicas do Covid, cada vez mais especialistas concordam que ela veio para ficar.

Taxas de Juros, Venture Capital, Inovação:

Com a necessidade de frear os estímulos econômicos, os bancos centrais sinalizam o fim da “era” do quantitative easing e o aumento das taxas de juros. Além das consequências financeiras diretas para o seu negócio e estrutura de capital, o impacto pode ser grande também na inovação.

Sem dúvidas as baixíssimas taxas de juros do mundo desenvolvido na última década geraram uma transferência de capital em busca de mais rentabilidade e risco. Isso contribuiu muito para o crescimento dos investimentos de Venture Capital no mundo inteiro e esse dinheiro fluiu diretamente em acelerar startups inovadoras no mundo inteiro (e a levar os múltiplos envolvidos nos valuations dessas mesmas empresas a níveis estratosféricos). Com o recente aumento das taxas, algumas dessas tendências já começaram a ser revertidas. O fim da grande explosão de VC? Impactos que vão diminuir acesso de capital a novas empresas e frear o ritmo da inovação? Ou apenas um ajuste temporário de mercado?

Geopolítica:

O clima geopolítico tem esquentado. EUA e China estão elevando o tom dos discursos e promovendo ações concretas cada vez mais hostis. Enquanto isso, cresce o temor de confrontos ao redor da difícil questão da Rússia, Ucrânia e OTAN. Além da ameaça de confrontos, a geopolítica impacta cada vez mais a economia em um mundo onde as cadeias de produção estão cada vez mais globalizadas, através de sanções, taxas e bloqueios. 

Regulamentação das Big Tech e Privacidade:

Existe um crescente movimento político nos Estados Unidos pedindo mais regulação das big techs. No mundo Social, Facebook e Twitter têm sido muito pressionados depois das eleições americanas, os incidentes de 06 de Janeiro, a dificuldade de garantir legitimidade em informações ligadas a Covid, e os crescentes reports sobre o efeito das mídias no desenvolvimento e auto-estima de crianças e adolescentes. A pressão cresce para que as plataformas tenham mais moderação de conteúdo e o Twitter recentemente implementou mudanças logo após anunciar a saída do CEO Jack Dorsey.

No lado E-Commerce, a Amazon também vem sofrendo pressões devido às condições de trabalho, problemas com sindicatos e também dos órgãos antitruste.

Os críticos dizem que as tecnologias desenvolvidas nas últimas décadas tiveram efeitos colaterais perversos no nosso tecido social e que dar o poder absoluto sobre a informação e o conceito de verdade para alguns bilionários é perigoso e indesejável. Por outro lado, os defensores do modelo acreditam que trazer intervenção estatal iria frear a inovação e seria um risco ainda maior ainda para a liberdade de expressão.

O futuro das plataformas de big tech é continuar como uma arena privada e menos regulada? Ou uma “praça pública” onde regras comuns devem ditar a convivência e os termos de engajamento?

Esse é um dos grandes debates globais do momento e sentiremos o seu impacto por décadas.

Metaverso:

Deixo a coluna do Eduardo Abritta  (https://themakers.com.br/o-que-esperar-metaverso/) para o tema. O Facebook vai ser pioneiro em acelerar uma nova onda de digitalização, que vai além do Social e permitirá diversas oportunidades de digitalização de interações? Isso tudo não passa de um rebranding corporativo para fugir das regulamentações descritas acima? Ou uma manobra para que o Facebook seja dono do sistema operacional do Metaverso e fuja da dependência que tem hoje da Apple (cujas recentes decisões sobre privacidade impactam severamente o modelo de negócios das suas plataformas, revelando os conflitos entre as duas gigantes).

Esse com certeza é um movimento para acompanhar de perto.

 NFTs:

Deixo outra coluna do Eduardo para falarmos de NFT (https://themakers.com.br/nfts-gamification-e-avatares-gerando-dialogo-atraves-do-mundo-virtual/). A  velocidade de adesão dessa tecnologia como ferramenta de digitalização de propriedade intelectual tem sido impressionante, e ela tem potencial de causar grande disrupção em áreas como moda, esportes, artes, mercado imobiliário e tantas outras. Do mesmo modo, muitos apontam a formação de bolhas especulativas causadas pelo mesmo excesso de liquidez citado acima no capítulo Inflação, e o mercado de NFTs que já movimenta mais de 2 Bilhoes de dolares por mes tem levado a valuations bastante duvidosos em muitas obras de arte.

Depois de ter registrado um crescimento de 38.000%, 2022 será o ano de amadurecimento dessa tecnologia, ajustes de mercado e  superação da curva de adoção inicial. 

DAOs:

As Organizações Autônomas Descentralizadas se apresentam como uma alternativa para a organização do futuro. Nesse sistema, usuários cooperam em uma organização com contratos digitalizados (smart contracts) onde todas as regras são transparentes. Na prática, funciona como uma empresa ou uma ONG, porém 100% descentralizada.

As DAOs fizeram barulho esse ano quando um grupo se reuniu através da Constitution DAO e captaram 40 milhões de dólares para comprar uma das 13 cópias originais da Constituição Americana. No fim das contas, perderam por 3 milhões para o bid vencedor, mas foi o suficiente para provar que esse formato de crowdfunding pode ser revolucionário ao empoderar o pequeno investidor.

Além de elevar e organizar o poder de consumo (como no caso da Constituição), pode ser também que o formato se prove vencedor em gerenciar organizações em grande escala. Será que vamos todos trabalhar em um DAO no futuro?

Great Resignation –  Efeito Passageiro ou Permanente?

Durante a pandemia, muitas pessoas reavaliaram suas escolhas de vida e carreira, e o resultado foram níveis de turnover inéditos em diversos setores globais. Nos Estados Unidos, o turnover anual médio chegou a 3.4% por mês e mesmo empresas de ponta como Amazon perderam quase um terço da sua força de trabalho em um ano.

Os dados, como tudo do mundo pós-pandemia, são confusos. Alguns apontam como um efeito temporário, também acelerado pelos estímulos monetários governamentais. Outros, uma mudança de paradigma e relação com o trabalho que durará anos.

O ano de 2022 será muito importante para entendermos de fato o que está acontecendo nas novas relações de trabalho. O impacto pode ser gigante. Se de fato teremos uma grande fatia da força de trabalho global mudando completamente sua relação com escritório, carreira e prioridades de vida, os efeitos organizacionais e econômicos disso serão um verdadeiro tsunami.

Gen-Zs ja nao tao novinhos assim

O olhar atento à Geração Z nao é nenhuma novidade, mas até então esse olhar era sempre de uma perspectiva de consumidor ou de criadores de conteúdo e cultura. Porém, os membros mais velhos dessa geração agora tem 26 anos e isso significa que começam a ganhar sua independência financeira e tomar decisões econômicas de gente grande. Além disso, se integram ao mercado de trabalho e são a primeira geração de digital native workers. Isso significa que 2022 será um ano importante para aprendermos mais sobre como será a GenZ além do Tik Tok, como geração que paga boletos, bate ponto e gerencia pessoas.

Alguns dados já mostram o tamanho do gap generacional que viveremos. Para começar, 80% querem ser seus próprios chefes e 50% planejam abrir seus próprios negócios. A geração mais empreendedora da história.

Entender o verdadeiro impacto da chegada da Gen Z ao mercado de trabalho é algo para ficar atento para 2022. 

E agora…

A maior dificuldade dos business plan é sempre o de manter um olho nos grandes movimentos macro, mas não esquecer que a execução acontece no micro. Não é produtivo paralisar um negócio a espera de ano eleitoral, assim como não se pode esquecer que existem sim macro movimentos globais.

Se o Ano do Tigre de 2022 se inicia cheio de dúvidas e rupturas, inicia também cheio de promessas e como vamos ouvir naquela incessante musiquinha.. ” o futuro ja começou…”.