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Olá leitores da Makers. É com muita honra e prazer que inauguro meu primeiro artigo como colunista aqui com vocês. Demorou mais do que eu gostaria para sair, um mix de muito trabalho, compromissos corporativos, pessoais e férias – um excelente motivo – alias estou terminando de escrever no avião durante as 12h de voo da volta – tudo isso fez com que eu tivesse um hiato entre o anúncio da coluna para sua estréia. No entanto, mais bem organizado e com tempo de qualidade reservado todo mês para esse espaço, a partir de agora uma vez por mês encontro você aqui para dividirmos ideias, pensamentos e reflexões, sejam eles corporativo ou não e vou dizer porque.   

A vida já está cheia de regras e nesse espaço vou procurar trazer aquilo que eu gostaria de dividir independente do âmbito, seja técnico sobre marketing, growth, martech, mídia, dados, liderança, gestão ou sobre a vida e temas que podem ser pertinentes para nós como ser humano e sociedade.

ROBSON HARADA – Head de Growth Marketing do Itaú Unibanco

Nesse artigo inaugural eu não vou para o lado técnico ou diretamente ligado ao marketing que é onde construi minha carreira e especialidade. Isso tem até um motivo ainda mais especial, sobre algo que eu estava lendo esses dias e há bastante tempo reflito e estou tentando desconstruir especialmente em mim, uma pessoa com um centro gravitacional muito forte na esfera profissional, o que conecta com o tema dessa fala que vai ao encontro de uma habilidade muito decisiva no mundo atual – na minha concepção – que é a habilidade de desaprender. 

Muitos de nós de maneira automática nos definimos pelo que fazemos no trabalho, em geral uma das primeiras perguntas que fazemos um ao outro em uma conversa, é o que você faz e quase que de imediato muitos (não todos) respondem com o que trabalham, qual empresa, o que ou onde estuda e afins. Inclusive nesse artigo que estava lendo, diz que isso é mais forte em algumas culturas e países como o nosso por exemplo, e que em alguns lugares chega ser considerado indelicado em uma conversa com alguém que você não tenha o mínimo de intimidade perguntar com o que a pessoa trabalha. Eu estou desaprendendo a resposta que eu sempre dei nesse tipo de pergunta, me re-educando a responder algo diferente da minha profissão ou onde trabalho, e o mais engraçado é ver a reação e estranhamento das pessoas ao dar uma resposta como eu faço o meu melhor para viver bem, viajando, tutorando minha amada Yoga (minha cachorra) ou como diz o mantra do Buda moderno: tento não ser um cuzão. E quando perguntam do meu trabalho procuro dizer eu estou como Head de Growth Marketing do Itaú Unibanco, transmutando o sou, porque nossa condição profissional sempre vai ser passageira, e para eu desaprender que não sou o meu trabalho ainda tem sido desafiador. Obviamente a esfera profissional é importante e ela pode e deve se misturar na sua vida como um todo, especialmente quando você tem o prazer de estar em um emprego ou contexto profissional o qual é apaixonado e acaba não encarando trabalho como um fardo, isso pode acontecer e é muito especial, mas entender o lugar de cada esfera e não se definir por uma ou outra é o que faz a diferença. Contudo, o foco do artigo não é esse, até porque muito já se falou, discutiu e publicou sobre isso, quis apenas criar o gancho para o tema central que comentei acima, a importância do desaprender. 

Por isso gostaria de falar sobre modelo mental, sobre humildade e desconstrução de formas, padrões e crenças limitantes ou não, porque as vezes uma crença não é limitante na sua essência, mas pode limitar você a se expandir e evoluir. A gente está vivendo um mundo e uma geração onde muito está acontecendo, diversas pautas de extrema importância e históricas estão sendo discutidas e enfrentadas com muita coragem, para que a gente consiga construir uma sociedade mais justa, igualitária e o principal corrigir erros e atrocidades históricas com determinados grupos. Não vou entrar no mérito nem no detalhe de quais são essas pautas que julgo de extrema importância, mas trouxe isso a tona porque meu processo de “desaprendimento” se torna ainda mais agudo quando falamos sobre elas. 

Aprender a desaprender é valiosíssimo em todas as nossas esferas: pessoal, profissional, afetiva e espiritual. Não vejo mais espaço para cabeça dura, preconceitos explícitos ou velados e inflexibilidade em um contexto que desaprender, além de te fazer evoluir como pessoa é uma questão de sobrevivência. Vou trazer alguns exemplos empíricos aqui. 

No lado pessoal, eu tive e ainda estou desaprendendo sobre que o que eu falei no passado, “brinquei ou zuei” sobre alguma característica de uma pessoa, opção ou estilo de vida, é errado, não apenas de falar, mas também de pensar, e é um grande exercício diário desaprender isso para poder me tornar uma pessoa melhor e mais justa com outras que sofreram o que eu não sofri, que passaram o que eu não passei e que não me da o direito de “brincar” com isso. Vai desde falas graves e agressivas somente porque a tal da “zuera never ends” até falas inocentes de termos, jargões que você sempre falou de maneira inconsciente, mas nunca se atentou para sua etimologia. Eu tenho a boa sorte de ao meu redor conviver com pessoas que estão nesse processo de transformação, desconstrução ou no seu lugar de fala, as quais eu admiro e aprendo com elas e desaprendo o que estava aqui enraizado por muito tempo. Tenho ainda uma longa jornada pela frente, mas o estado de consciência e qualidade de presença no tema já é um grande passo. Alguns podem pensar, “ah mas o mundo ta ficando chato” eu mesmo ja pensei e falei isso algumas vezes, mas não é o mundo que está ficando chato, é a gente que não esta sendo capaz de entender que erros do passado não precisam ser cometidos ou tolerados no presente e no futuro, e que precisamos nos adaptar e evoluir de maneira legítima a isso. 

Ainda trazendo sobre experiências minhas, uma vez que no que me proponho a escrever nessa coluna ou em âmbito público, gostaria de criar uma conversa quase que íntima, pessoal e empática com quem está acompanhando, apresentar vulnerabilidades para evitar criar um arquétipo do herói, trazer questões que me impactaram e com o que eu aprendi ou desaprendi de alguma forma possa ajudar você no seu processo evolutivo. No âmbito afetivo, eu passei por dois relacionamentos aos quais eu fui traído com muito gosto digamos assim, com isso eu aprendi que não podia confiar nas pessoas em minhas relações, mas olha que complexo e quase que triste isso, se eu sedimentei que em toda relação eu não posso confiar, como que eu vou me relacionar e ser feliz com alguém? Ainda mais eu que no geral não manifesto ciúmes como uma arma de defesa ou ataque. Conversando com uma pessoa recentemente ela me disse algo que me fez pensar muito e entrar em um processo de desaprendizagem sobre o que eu aprendi de maneira errônea. Cada relação é uma tela em branco e não é porque aconteceu esse tipo de situação em outras que isso vai acontecer sempre, precisamos criar quase que um score de confiabilidade, que começa em base 100 e ele pode aumentar ou diminuir com o tempo e baseado nessa atual experiência você norteia seu grau de confiança ou entrega. Pode parecer óbvio isso que me foi dito, mas eu precisei ouvir para processar e desaprender o que eu aprendi e com isso poder construir laços futuros mais saudáveis e leves. 

E para não deixar de falar de uma outra importante esfera, além do que, eu fui convidado com muito esmero para fazer parte dessa coluna justamente por causa dela, trago aqui o desaprender no âmbito corporativo. Habilidade que vai te fazer um profissional muito mais preparado, valorizado e capacitado para lidar com o mercado de trabalho contemporâneo. Principalmente pelo advento da tecnologia como interface, fio condutor e base para quase todas as profissões, pense bem e reflita, praticamente todas as profissões do mundo, sofreram ou sofrem impacto por causa da tecnologia, isso é inegável e irrefutável, não vou dar exemplos aqui porque gostaria que você fizesse esse exercício mental e te desafio a trazer para mim uma profissão ou trabalho que não teve impacto causado pela tecnologia de maneira atemporal. Tudo isso para dizer que tudo tem sido ainda mais dinâmico, o que era a melhor prática pouco tempo atrás, já não é agora, a melhor metodologia, ferramenta, serviço, modelo etc, tudo tem mudado muito rápido e se você ficar apegado ao que aprendeu e quiser fazer parte do time do “faço assim porque sempre foi assim”, você está condenado como profissional.

Quanto mais você estiver atento e consciente sobre si mesmo, em relação ao que você precisa saber que você não sabe mais, isso será um dos seus maiores diferenciais competitivos no mercado.

Desaprender é o primeiro passo para um novo ciclo de aprendizado. Espero que esse artigo tenha feito você refletir de alguma maneira, não leve tudo ao literal e pense sobre o que está na hora de desprender para dar espaço para uma nova forma de fazer, ser e prevalecer. Nos próximos meses vou trazer uma série sobre um livro e filosofia que mudou muito (para melhor) minha vida e visão de mundo, ele se chama Os Quatro Compromissos (Dom Miguel Ruiz), tradução em português para The Four Agreements. Fiz algumas adaptações a essa tradução local e aceito como compromissos para vida pessoal, mas para profissional encaro o livro como Os Quatro Acordos. Vai ficar mais claro no próximo artigo e vou destrinchar eles posicionando cada ponto em nossas vidas pessoais e profissionais. Eu quis dar esse spoiler para caso você queira ler (é super rápido e gostoso) ajuda a criar uma base mais forte para o que vou abordar nos próximos meses. Além de ser um livro e filosofia com real poder de transformar vidas. 

PS: tomei a liberdade e licença poética de usar termos e palavras que não são gramaticalmente corretos, por isso não pense que estou assassinando o português ou sendo leviano com as boas práticas da gramática e literatura, alias, vou sempre fazer muito disso por aqui, como falei lá no começo, a vida já está cheia de regras, muitas precisam e devem ser seguidas, outras podem ser flexibilizadas em prol de um melhor entendimento, leveza e identidade.

Robson Harada

CMO da Mercado Bitcoin