Rotina social nas redes

Em 2019, resolvi fazer um detox das redes sociais e por 6 meses, não acessei nenhum aplicativo que consumia boa parte do meu dia. Lá se foram Whatsapp, Facebook, Instagram, LinkedIn, TikTok, Tinder… todos, deletei até mesmo os aplicativos com insistentes pushs que me faziam conferir a oferta do dia e perder 5 minutos. Durante este período, meu tempo foi aos poucos sendo ocupado por outras atividades, algumas muito mais prazerosas, se tornaram hábitos e estão presentes até hoje, como a meditação 2x ao dia, a leitura antes de dormir, o acordar com menos pressa para saber as notícias da noite anterior e também descobri o poder dos Podcasts nos trajetos casa-escritório, ao invés de perigosamente digitar enquanto dirigia.   

Voltei por insistência dos amigos que pediam minha presença, voltei por necessidade do trabalho, já que muitas das decisões acontecem via Whatsapp ou oportunidades de interações com o consumidor surgem nas redes, voltei por saudades das redes. De qualquer modo, eu sabia que o período de detox era passageiro e aproveitei cada minuto. Sabia que a ansiedade de checar o aplicativo e ver se minha mensagem já tinha uma resposta ou de comparar o sucesso de um post pelo número de likes voltaria a qualquer momento e que é realmente impossível se manter alheio a tudo isto. Mas o que eu posso aprender nesse período? Como utilizar melhor as redes sociais e aproveitar ao máximo o conteúdo a que sou exposto? 

Alain de Botton, filósofo suíço, escreveu que o acelerado zumbido das redes sociais penetrou em nós (na verdade, este ensaio era sobre o impacto do noticiário em nossas vidas, mas tomei a liberdade de substituir o conceito ‘notícia’ por ‘redes sociais’), hoje em dia, é uma proeza ter um momento de calma, é um milagre adormecer ou conversar com um amigo sem se distrair. E que disciplina é necessária para desviarmos nossa atenção do turbilhão de conteúdo e, por um dia inteiro, ouvir somente a chuva e nossos próprios pensamentos. Talvez a sociedade precise de ajuda para lidar com as consequências desta exposição: alegria e frustração, tudo àquilo que tivemos acesso, mas que às vezes seria melhor não ter sabido. 

Não sei se a sociedade quer ser salva, mas eu queria em 2019 e ainda quero!

Um primeiro aprendizado foi selecionar melhor minha fonte de informação, livrei-me dos grupos de Whatsapp desnecessários, da vida perfeita de desconhecidos no meu Instagram e, ao mesmo tempo, adicionei novos, de preferência pessoas que não faziam parte do meu círculo e que pensavam diferente de mim. Parece estranho, mas funciona, sair da minha bolha da internet me fez aproveitar melhor as redes. Por que não seguir pessoas com opiniões políticas diferentes? Artistas que você não compartilha do mesmo gosto e profissionais que seguem linhas diferentes da que você admira? Essa decisão me gerou incômodo em muitos momentos, mas também, me fez refletir sobre quem eu sou e porque.

Outro aprendizado, as redes são sim fontes de aprendizado, tenho grupos de profissionais de marketing no Whatsapp que me provocam melhorias todos os dias, uso o Instagram para saber o que diferentes tribos pensam sobre um mesmo assunto e lapidar o meu ponto de vista, tenho insights com textos compartilhados via LinkedIn. É assim que me mantenho atualizado e de uma certa forma, próximo de todas estas pessoas, pronto para um contato pessoal, se for necessário aprofundar mais.

Por último, saber que existem momentos em que a rede social deve ser mantida longe, estar presente durante encontros de amigos e familiares, focar numa conversa por telefone (ao invés de colocar no viva voz e checar algum app, sim fiz isso muitas vezes e respondi a amigos com um ‘aham’) ou aproveitar um jantar sem ter que compartilhar o prato nas redes. Estes momentos são importantes e a atenção que eu dedico é a atenção que eu recebo. Eu sei, muitas vezes falta assunto e você quer desesperadamente falar algo interessante e a rede te fornece isso, mas a pausa precisa ser normalizada, existe um aprendizado no silêncio, não somos bebês atrás de estímulos 24 horas por dia. Esse saber quando é tempo de desligar, quando as redes não tem mais nada de original para me oferecer foi um presente do detox. Descobri que eu preciso de longos momentos wireless para aproveitar ao máximo a conexão, que a tela merece ser desligada para que eu aproveite as minhas paisagens particulares.

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