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“Vambora, vambora! Olha a hora, vambora, vambora!” – a música tema da Jovem Pan era parte inegociável da rotina do meu avô.

Ele sempre se levantou muito cedo. Eu lembro de uma vez acordar às 6:30 da manhã e encontrar ele em pé, fazendo palavra cruzada.

Ele me olhou por cima dos óculos meia lente e disparou, com ironia: “Boa tarde!”

“Mas, vô, é cedo pra caramba” – retruquei.

“Pra mim, já é tarde.” – ele determinou. E sempre falava isso para todo mundo.

Aliás, meu vô era cheio dos bordões. Tinha dezenas. Em cada situação, as pessoas já sabiam o que ele iria falar pelo contexto.

Quando minha avó estava preparando o almoço, ele encostava e falava baixinho: “vai demorar? Se for, vou comer um sanduíche na esquina”. Quando ela começava a reclamar dele, era a vez do “fala mal, mas fala de mim”.

Sempre que estava indo embora, falava “até quarta-feira!”. Independente do dia da semana.

Ele também chamava todo mundo de Francisco ou Francisca.

Sim, meu avô era uma figura!

Empreendedor desde sempre, ele mudou para São Paulo no começo dos anos 70, na época do milagre econômico. As pessoas estavam super otimistas e sentiam que construíram o futuro. São Paulo era o auge deste progresso, e meu avô era mais um dos milhares que acordavam cedo para criar um mundo novo.

E nada capturou tanto o espírito daquele momento como Sinfonia Paulistana, de Billy Blanco, usada como abertura da programação da Jovem Pan, ou como Franco Neto e o seu “aqui no espigão da Paulista, seis horas. Repita, seis horas.” – que meu avô ouvia, muitas vezes, já do escritório, pelo rádio que havia comprado para deixar em cima da sua mesa.

Acontece que, como chegava muito cedo no trabalho, acabava saindo cedo também, e os colegas que ficavam até mais tarde começaram a usar o rádio dele, mas para ouvir rock & roll.

Um dia ele chegou, ligou o rádio e estava em outra estação. Até sintonizar de novo na Pan, perdeu a música. No outro dia, aconteceu de novo.

Primeiro, ele pediu para os colegas sempre voltarem o dial para a estação dele, mas os meninos esqueciam. Até que um dia, cansado de ter o ritual matinal prejudicado, ele pegou o rádio na hora do almoço, levou até um eletricista do bairro e decretou: “pode soldar”!

Acabou o problema. Agora o rádio estava para sempre na sua estação favorita.

Mas por que estou contando essa “mitologia” familiar?

Porque, depois de anos rindo disso, essa história me gerou uma reflexão:  além da irritação com os colegas e o apego à rotina matinal, o que levou meu avô a soldar o rádio em uma única estação?

É preciso ter muito vínculo emocional com essa marca, com essa programação, para dispensar todas as possíveis opções.

Não se trata de razão.

Foi o coração do meu avô quem disparou a ordem e sustentou a decisão.

Sim, foi seu coração. Tocado e aquecido por um bordão que falava profundamente com sua alma empreendedora. Pela música que simbolizava seu propósito naquela fase da sua vida. Ele sentia-se abraçado, entendido, conectado.

Quando marcas fazem o consumidor “soldar o dial”?

 Partindo desta história, comecei a pensar: e eu, tenho uma relação extrema de fidelidade com alguma marca? Que empresas eu trato como parte da minha família? Quais produtos ou serviços me acolhem a ponto de eu não considerar experimentar concorrentes?

Será que tenho isso com celular? Carro? Escola do meu filho?

Confesso que não foi fácil, mas consegui identificar algumas.

Tem um restaurante mediterrâneo perto de casa. Vinho bom e barato, algumas tapas gostosas, um ambiente aconchegante. Mas o que me prende lá é a história da proprietária Adriana, que foi abandonada pelo marido e antigo chef. Ele voltou para a Espanha e ela ficou com o restaurante e as dívidas. Sem experiência com cozinha. Mas ela batalhou, venceu uma debandada de funcionários, uma pandemia e segue firme. Somos fiéis a ela.

Minha academia. Entrei lá saindo de um burnout e com colesterol explodindo. Ganhei uma segunda família. Abriram várias outras academias mais baratas, mais descoladas e mais perto da minha casa, mas não saio de lá. Eles estiveram comigo e me ajudaram a sair de uma das piores fases da minha vida.

A farmácia perto de casa. A farmacêutica Amparo (é o nome dela mesmo, juro!) me chama pelo nome, pergunta sempre do meu filho, me dá dicas incríveis de ofertas e serviços e os atendentes falam comigo no Whatsapp e trazem as minhas compras em casa. Na pandemia, fiz vários testes lá e sinto que atravessamos essa barra juntos, e juntos ficaremos.

Sim, escolho por preço, conveniência, prazo de pagamento. Mas também acredito que, num mundo que parece um oceano cheio de ondas gigantes de incertezas, as pessoas precisam de “ilhas calmas”, que são as experiências e lugares que as fazem se sentir seguras e bem-vindas.

Isso não significa que as experiências precisam ser perfeitas. Claro que, às vezes, o App que sempre te leva a comida em poucos minutos tem problemas e atrasa. O atendente que te conhece na padaria não está naquele horário, a lanchonete está cheia ou falta um ingrediente, e assim por diante.

 

Vitor Bertoncini

CMO da Raia Drograsil