Falar difícil não o torna mais inteligente

Há pouco tempo fui impactada por uma frase nas redes sociais que dizia “Você não é mais inteligente só porque fala difícil”. Ao refletir sobre essa frase, me peguei revivendo uma série de situações em que ela se aplicava muito bem e pensei: “na verdade isso só torna a pessoa mais ignorante”. Agora vou te contar o porquê, usando um exemplo que vivenciei na pele, na sala de reuniões de um grande empresário.

Muitos empreendedores de sucesso são pessoas que vieram de lares humildes e sem muita escolaridade. Mas foram capazes de compensar a falta de conhecimento acadêmico com perspicácia, resiliência e, o mais importante, com um sonho para conquistar. Uma das coisas que aprendi na minha jornada corporativa é que experiência de vida vale mais que conhecimento acadêmico ou técnico. E que quando se tem um sonho, um objetivo claro, determinação e força de vontade, você está mais perto do sucesso que a maioria das pessoas.

Certa vez tive a oportunidade de participar de uma reunião com o dono de uma grande rede varejista. Estávamos eu, o executivo da conta e o meu diretor, que aqui vou chamar de Térsio. Enquanto aguardávamos na recepção, o Térsio disse: “Podem deixar que eu lidero a reunião. Sei bem lidar com donos de empresa. Estou acostumado e sei qual é o jogo deles!”. Ok, dissemos. Manda quem pode, obedece quem tem juízo. Havia a questão da hierarquia – o Térsio era nosso diretor e, portanto, seria esperado que liderasse a reunião. 

Ao entramos na sala do dono da empresa, que vou chamar de Sérgio – e que nenhum de nós conhecia pessoalmente, fiquei impressionada com tanto luxo. A sala era cheia de ambientes, maior que meu apartamento na época. Tinha até um piano de cauda! Na parede, fotos com várias celebridades, incluindo o Papa. Sim “o Papa”, a “Vossa Santidade”. Nos levaram a uma sala com uma mesa enorme onde nos juntamos à 5 pessoas do time da empresa de varejo. 

Depois de 10 minutos, Sérgio chegou para a reunião. Uma figura simpática, pequena, meio carequinha e bem despojado. Rapidamente nos fez sentir à vontade, desmistificando a imagem estilo “O Poderoso Chefão” que tínhamos até então. Tive a iniciativa de quebrar o gelo: “Seu Sérgio, quando minha avó souber que eu conheci o senhor, não vai acreditar. Ela compra sempre na sua loja”. Reforçando ser uma pessoa adorável, ele disse que “gravaria ao final da reunião que um vídeo mandando um abraço especial à minha avó”. Quando os assuntos de negócios começaram, o Térsio começou a apresentar como poderíamos aumentar as vendas dos nossos produtos nas lojas do senhor Sérgio. Tudo caminhava bem, até que chegamos em um slide com alguns dados de mercado usando siglas e termos em inglês, vários deles. Depois da terceira vez que o Térsio usou o inglês, seu Sérgio interrompeu dizendo: “meu filho, imagino que o que você esteja dizendo seja interessante, mas você pode falar alguma coisa no idioma que eu falo? Não sei falar inglês e não conheço essas siglas”. Com este pedido do Seu Sérgio, ficou claro que o Térsio precisava ajustar a forma de conduzir a reunião para que os argumentos e o discurso ficassem mais claros. 

Como terminou a reunião? Após o Térsio repetir termos incompreensíveis para o Seu Sergio, tentei intervir de uma forma educada, buscando ajudar a transmitir as informações mais importantes que tínhamos para apresentar. Depois de certo ponto, Seu Sergio passou a dedicar mais atenção a mim, como se pedisse para eu liderar a reunião. Além da empatia que tivemos no começo, ele identificou que eu conseguia transmitir as ideias de forma mais objetiva, permitindo estabelecer o diálogo e avançar a negociação. Não foi tarefa fácil controlar o cérebro e ajustar o discurso para não repetir todos os termos que estamos habituados a usar no cotidiano. Todas as vezes que escapava um “BTL”, por exemplo, eu automaticamente explicava o significado para que a ideia fizesse sentido. Ao final, conseguimos ter uma reunião muito positiva. Fechamos um “pedidão” e saímos com as famosas “lições de casa”. 

Vamos à conclusão deste texto e a relação com o título: falar difícil, rebuscado ou usar termos complexos – que no mundo de Digital, e-Commerce, Marketing etc., são quase infinitos, não nos torna mais inteligentes. Não é isso que nos destaca ou demonstra o quão brilhante ou inteligente podemos ser. Isso é uma cilada! Conhecer sua audiência, seu público e seus interlocutores é o mais importante. Entender o discurso e escolher a abordagem ideal para transmitir a mensagem corretamente. Não existe nada pior e mais deselegante que uma fala desconexa e descolada com o perfil da nossa audiência. Ao invés de empatia, geramos rejeição e corremos o risco de passar uma imagem de soberba, ainda mais neste momento pandêmico em que as “salas reuniões” foram substituídas pelas telas. Falta de flexibilidade e adaptação ao público para tornar uma informação compreensível pode ser, muitas vezes, uma barreira para alguns executivos avançarem na carreira. Não conseguir se livrar da “sopa de letrinhas” e achar que o mundo tem que compreendê-lo e não o contrário – “Narciso, é você?”. A importância de se ter empatia e se adaptar com facilidade e sensibilidade ao público torna a mensagem mais clara, compreensível e deixa uma marca positiva nos receptores. 

Fecho com uma frase da jornalista, repórter e apresentadora Claudia Belucci: “Comunicação não é o que você fala, mas o que o outro compreende do que foi dito”. 

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